A queda das ações da Nike não pode ser explicada por um único evento. A retirada da empresa do S&P 100 chamou atenção, mas o movimento do papel já vinha de anos de pressão sobre vendas, margens e expectativas. No início de setembro de 2026, dados de mercado divulgados na época indicavam que a ação estava cerca de 78% abaixo da máxima histórica.
Para o investidor, o ponto central é separar notícia de índice, mudança operacional e resultado financeiro. Uma ação pode cair por saída de um índice, mas também pode cair porque o mercado passa a questionar a capacidade de a empresa recuperar crescimento e lucro. No caso da Nike, esses fatores aparecem ao mesmo tempo, mas não têm o mesmo peso.
O problema começou dentro do negócio, não no índice
A Nike reconheceu, em explicações relacionadas ao terceiro trimestre do ano fiscal de 2025, que ficou dependente demais de algumas linhas clássicas de calçados. Entre elas estavam Air Force 1, Dunk e Air Jordan 1. A empresa não disse que essas linhas seriam abandonadas, e sim que precisava reduzir a oferta de alguns produtos para reequilibrar o portfólio.
Esse tipo de ajuste é delicado. Um tênis já conhecido costuma ter demanda previsível, giro nas lojas e histórico de reposição. Quando a empresa decide diminuir essa dependência, ela abre espaço para produtos novos, mas esse espaço não vira venda automaticamente. Um lançamento precisa ganhar atenção, chegar aos canais certos, convencer o consumidor e gerar novos pedidos dos varejistas.
Por isso, a transição pode pressionar a receita no curto prazo. Se a empresa vende menos de produtos antigos antes de os novos produtos alcançarem escala, o resultado consolidado sente o impacto. O risco para o investidor é que a substituição demore mais do que o esperado ou que os lançamentos tenham boa recepção inicial, mas não sejam grandes o suficiente para mudar os números da companhia.
Descontos, estoque e o dilema do preço cheio
Outro fator importante foi a tentativa de reconstruir as vendas sem depender tanto de promoções. No relatório anual do ano fiscal de 2026, a empresa descreveu duas frentes simultâneas: fortalecer a distribuição no atacado e transformar os canais próprios digitais em um destino de preço cheio, ou seja, com menos dependência de descontos.
Esse é um dilema clássico no varejo. Quando há estoque antigo, a companhia pode usar remarcações para liberar espaço e gerar caixa. O problema é que o consumidor pode se acostumar a esperar uma promoção. Se a empresa reduz os descontos, cada venda pode ser mais rentável, mas o volume de pedidos pode cair. Se mantém descontos por muito tempo, pode preservar tráfego, mas enfraquece a percepção de valor da marca.
Os números do ano fiscal de 2026 mostram essa recuperação desigual. As vendas no atacado subiram 6%, enquanto as vendas diretas da Nike caíram 6%. A área direta inclui lojas próprias e canais digitais. Na Grande China, as vendas caíram 11%, com relatos de tráfego mais fraco nas lojas, promoções intensas e excesso de estoque. A Converse, outro negócio do grupo, teve queda de 31%. Esses percentuais são variações em dólares reportados, antes de ajustes por efeitos cambiais.
O avanço no atacado é um sinal melhor do que uma queda generalizada, mas precisa ser lido com cuidado. Vender para varejistas não é a mesma coisa que ver o consumidor final comprando rapidamente nas lojas. Se o varejo compra mais apenas para recompor prateleiras, o efeito pode ser temporário. Se o produto gira bem e os pedidos se repetem, o sinal fica mais forte.
Por que o lucro sofreu mais do que a receita
Quando uma empresa vende menos e ainda precisa dar descontos, o lucro pode cair muito mais do que a receita. Foi o que apareceu nos resultados do ano fiscal de 2025 da Nike: a receita anual caiu 10%, enquanto o lucro por ação diluído caiu 42%. A margem bruta também recuou, com descontos e custos ligados a estoque entre os fatores citados.
Margem bruta é a parte da receita que sobra depois do custo dos produtos vendidos, antes de despesas como marketing, administração e outras estruturas. Imagine uma loja vendendo menos pares de calçados e, ao mesmo tempo, reduzindo preços para limpar estoque. Aluguel, equipe, logística e publicidade não caem necessariamente na mesma velocidade. Assim, uma queda moderada de vendas pode virar uma queda bem maior no lucro.
No ano fiscal de 2026, a receita anual ficou amplamente estável, mas o lucro por ação diluído voltou a cair, de US$ 2,16 para US$ 2,10. A queda foi menor, porém isso não significa uma volta automática ao padrão anterior de rentabilidade. Para o mercado, estabilizar é diferente de recuperar.
Também é importante olhar a margem com contexto. No quarto trimestre do ano fiscal de 2026, a Nike reportou margem bruta de 49,2%. Esse número incluiu cerca de nove pontos percentuais ligados à recuperação esperada de tarifas pagas sob o International Emergency Economic Powers Act, conhecido pela sigla IEEPA. Retirando apenas esse benefício divulgado, a margem ficaria aproximadamente em 40,2%, próxima dos 40,3% reportados um ano antes. Essa conta não é uma margem totalmente ajustada, pois remove apenas esse item específico, mas mostra por que uma melhora aparente precisa ser destrinchada.
O que significa sair do S&P 100
A S&P Dow Jones Indices anunciou em 4 de setembro de 2026 a retirada da Nike do S&P 100, com efeito antes da abertura do pregão de 21 de setembro de 2026. Pela mesma comunicação, a empresa continuou no S&P 500. Essa distinção é essencial.
O S&P 100 é um grupo menor dentro do universo do S&P 500. Ele não funciona como uma fila automática em que a empresa na posição seguinte entra e outra sai apenas por ranking. A metodologia considera critérios como tamanho da companhia, opções listadas e equilíbrio entre setores, além de envolver avaliação do comitê responsável.
Na prática, fundos que replicam o S&P 100 precisam ajustar a carteira para refletir a exclusão. Isso pode gerar venda técnica da ação. Já fundos que acompanham o S&P 500 não são obrigados a remover a Nike por causa dessa mudança. Além disso, a saída de um índice não cancela ações, não tira a empresa da bolsa e não altera, por si só, as vendas de tênis ou o lucro futuro.
O efeito de rebalanceamento pode pressionar o preço, mas não há garantia de queda no dia efetivo. Como o anúncio ocorre antes da mudança, outros participantes do mercado podem se posicionar antecipadamente, e compradores podem absorver parte ou todo o fluxo de venda. Por isso, a retirada do S&P 100 explica uma possível pressão técnica, mas não explica os anos anteriores de desvalorização.
Como avaliar uma possível recuperação
Depois de uma queda forte, é comum surgir a pergunta: a ação ficou barata? O preço isolado não responde. Uma ação pode estar muito abaixo do topo e ainda ser cara se o lucro esperado caiu bastante. Também pode parecer pressionada no curto prazo, mas ter melhora se o lucro futuro superar as expectativas. O valor depende do que a empresa pode ganhar e do múltiplo que o mercado aceita pagar por esses ganhos.
Um exemplo simples ajuda. Se uma empresa lucra US$ 5 por ação e o mercado paga 30 vezes esse lucro, o preço implícito seria US$ 150. Se o lucro cai para US$ 3 e o mercado passa a pagar 20 vezes, o preço implícito vai a US$ 60. A queda de 60% viria de duas forças ao mesmo tempo: menos lucro e menor disposição dos investidores a pagar por ele. Esse é apenas um exemplo hipotético, não uma estimativa de valor justo para a Nike.
Para acompanhar a recuperação da empresa, alguns sinais merecem atenção:
- Novos produtos com escala: não basta uma linha pequena crescer rápido. É preciso observar impacto em receita total, margem e pedidos recorrentes.
- Giro real no varejo: vendas no atacado são positivas, mas o ideal é verificar se os estoques estão saindo para o consumidor final.
- Menos promoção sem perda forte de demanda: preço cheio é melhor para margem, desde que haja compradores suficientes.
- Estabilização na China: a leitura deve separar moeda, unidades vendidas, tráfego e nível de desconto.
- Margens explicadas por operação: é diferente melhorar por preço, mix e custo de produto ou por um benefício pontual, como recuperação de tarifas.
Esses sinais podem aparecer antes de o lucro voltar ao patamar anterior. O mercado costuma antecipar cenários, mas também pode se frustrar se a melhora ficar apenas no discurso. Uma recuperação mais convincente exigiria menos dependência de estoque antigo, demanda saudável por produtos novos e margens sustentáveis sem promoções excessivas.
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